Filhos precisam de pais que sejam
modelos positivos
Meu pai está com oitenta e oito anos de idade e
mora sozinho num pequeno sítio nas montanhas, ao
norte da Califórnia, nos Estados Unidos. Creio que
seu tempo entre nós está chegando ao fim.
Porém, o que tranqüiliza a nós, seus
filhos, e é essencial para ele, é o fato de
que meu pai conhece a Jesus como Salvador e está
preparado para encontrar-se com Ele.
Papai nasceu numa modesta e numerosa família de
nove filhos. Meu avô era alcoólatra e faleceu
em decorrência disso. Quando meu pai tinha apenas
doze anos foi obrigado a parar seus estudos e teve que começar
a trabalhar para contribuir com o sustento familiar. Minha
avó era muito doente e, por isso, seus filhos tiveram
que se criar sozinhos.
Quando meu pai era ainda bem jovem enfrentou a Depressão
que abateu os Estados Unidos entre 1929 e 1932. Ele e seus
irmãos chegaram a passar fome e necessidades, mas
tiveram que se superar e continuar vivendo.
Meu pai nunca retomou seus estudos. Ao casar-se com minha
mãe, uma mulher já divorciada duas vezes,
culta e preparada, prognosticou-se muitas nuvens negras
no horizonte.
Cresci numa família desestabilizada e, nem é
preciso mencionar, que meu pai não conseguiu ser
um modelo positivo para seus filhos. Apesar disso, não
dá para simplesmente culpá-lo pelo que nos
aconteceu de errado e desagradável, pois creio que
ele não sabia como lidar com sua esposa e filhos;
isto é, ele era um homem totalmente despreparado
para enfrentar a vida conjugal e a criação
e educação de filhos.
Olhando então para o passado e pensando em minha
própria experiência familiar, concluo o quanto
é importante sermos modelos positivos para os filhos;
isto porque quando nos tornamos adultos tendemos a reagir
de uma entre duas formas:
a) Rebelando contra o exemplo negativo: "Nunca tratarei
meus filhos como meu pai me tratou”.
b) Repetindo os mesmos erros cometidos por nosso pai e
que tanto nos incomodaram na infância e adolescência.
Amigo leitor, recordando o tempo de infância, de
crescimento em casa, com sua família, que exemplo
seu pai lhe transmitiu? Ele foi compassivo, carinhoso, amigo,
protetor, perdoador, fiel? Se sua resposta à descrição
acima for positiva, reconheço-o como uma pessoa abençoada,
pois Infelizmente, são muitos os que não têm
uma lembrança positiva de seus pais.
Apesar de eu ter sido privado desse modelo adequado em
relação a meu pai (e também a minha
mãe) durante minha juventude, Deus me cercou de pessoas
excepcionais que causaram forte impressão em minha
vida. Pela graça de Deus, mesmo que "aos trancos
e barrancos", recebendo muitas lições
corretivas do Senhor, tenho conseguido superar o passado
satisfatoriamente. Sem dúvida alguma, minha esposa
Judith tem contribuído muito para isso, pois ela
é, e sempre foi, uma rocha na manutenção
do meu equilíbrio pessoal e emocional.
A divulgação distorcida da figura
masculina
É extremamente difícil ser bom marido e bom
pai vivendo numa sociedade que não se cansa de propagar
atitudes e pensamentos contrários aos ideais de Deus
para o homem. O pai consciente deve avaliar constantemente
se o sistema está influenciando e moldando negativamente
sua vida, afastando-o da direção que conduz
à realização pessoal e à aprovação
e bênção do Senhor.
A mídia enquadra o homem ideal na figura do macho.
Nossos heróis têm que ser duros, implacáveis,
invencíveis, individualistas, insensíveis.
São proibidos de chorar, não podem admitir
um erro, não podem fraquejar, falhar ou ser vulneráveis.
É triste e errado, mas nossos filhos lêem essa
mensagem em nossas atitudes.
Quando nosso filhinho cai, se machuca e imediatamente começa
a chorar, logo dizemos:
- Pare de chorar, você é homem ou não?
Na verdade o que estamos insinuando é que homens
e meninos não têm direito de chorar ou sentir
dor. A realidade, entretanto, é que Deus criou as
lágrimas para aliviarem a tristeza e o desconforto
tanto de mulheres quanto de homens.
Por outro lado, emergiu recentemente nos filmes, nos programas
de TV e até em desenhos animados, a figura de homens
fracos, incapazes, falhos, do tipo "Maria-mole".
Por que há essa polarização? Ou o homem
é apresentado como um ser inatingível e invencível
ou, então, como um fraco deprimente.
Outro enfoque prejudicial da imagem masculina se refere
à área profissional. A primeira pergunta que
um homem faz ao outro quando são apresentados, é:
- Qual é a sua área?
Há a inclinação de nivelar o valor
da pessoa à sua profissão, isto é,
não somos avaliados pelo que somos, mas pelo que
fazemos. Esta pressão leva o homem a exceder seus
limites, trabalhar demais, exagerar na dedicação
à vida profissional em detrimento da qualidade dos
relacionamentos familiares, principalmente com a esposa
e filhos. Quando o homem aceita a filosofia da sociedade
em que vive, é isso que acontece. Por vezes, esse
tipo de empenho profissional exacerbado resulta em sucesso
pessoal e ganho financeiro, mas não necessariamente
em tranqüilidade e consciência de responsabilidade
familiar cumprida.
Uma das maneiras utilizadas pela grande maioria dos homens
para acalmar suas inquietações quanto à
eficiência de seu papel de marido e pai, é
pensar assim: "Bom, eu me mato para dar o melhor para
eles e essa é a minha parte”.
Então, ao chegar em casa à noite, ele não
quer saber de mais nada… nem dos problemas que a esposa
enfrentou durante o dia, e nem dos filhos que querem fazer
perguntas e contar suas descobertas excitantes. Senta-se
refestelado na frente do aparelho de TV e deixa que seu
lar continue inteiramente nas mãos da mulher, sem
se importar se ela está exausta por ter trabalhado
em casa ou mesmo fora, precisando muito compartilhar sua
carga diária com alguém, de preferência
com ele, que é a pessoa que um dia prometeu amá-la,
protegê-la e ser seu companheiro.
Quando o Brasil ainda era uma nação rural,
os meninos ao atingirem uma certa idade passavam a trabalhar,
ombro a ombro, com seus pais. A presença paterna
era marcante na vida desses jovens. Hoje, o homem viaja
freqüentemente para longe, a negócios. Os filhos
pouco sabem a respeito de onde eles trabalham ou do que
fazem. Sendo assim, cresce um abismo entre eles causado
pelo grande número de horas que ficam longe um do
outro.
Um outro grave problema é a atitude dos homens no
que diz respeito ao relacionamento sexual. É aí
que a imagem de macho, desenvolvida desde a infância,
exacerba-se no homem. Ele pode revelar-se um bruto, ignorante
e rude na cama. Humilhadas e em lágrimas, muitas
mulheres confessam que seus maridos as chamam de prostitutas
e as ameaçam de estupro.
Em alguns poucos casos, quando confrontei os maridos que
disseram tais barbaridades às esposas, eles argumentaram
que foram ensinados dessa forma, que não sabem agir
de modo diferente e que não são homens de
"veludo". Não receberam de seus pais (que
por sua vez também não receberam dos seus
e assim voltando para trás indefinidamente) uma orientação
de como lidar de forma digna e honrada com a área
sexual.
Nossa sociedade instiga e exige que o homem exerça
autoridade e poder sobre sua família. A mulher é
um objeto a ser conquistado. Muitas vezes eles gostam de
exibir sua superioridade sobre elas. Os filhos acabam incorporando
e carregando pela vida esse exemplo nocivo, estendendo-o
a seus futuros casamentos.
A cultura atual louva o homem independente, suficiente,
totalmente capaz. Setenta por cento de meu ministério
de aconselhamento tem início com uma mulher solicitando
ajuda, pedindo socorro para seus problemas conjugais. É
muito difícil o homem tomar esta iniciativa. Por
quê? Porque é uma ameaça ao seu ego
ter de admitir que não consegue solucionar seus próprios
conflitos. Talvez, parte do problema seja dificuldade em
expor sua intimidade, sua capacidade de ser autêntico,
honesto, aberto e transparente. Isto pode explicar o impedimento
de uma comunicação com a esposa a nível
profundo, sendo isso, no entanto, o que ela mais deseja.
Pai, seu filho precisa sentir e assistir sua emoção,
sua sensibilidade precisa vê-lo ter liberdade para
chorar. Não é pecado exteriorizar fraqueza,
medo, desapontamento.
Após tais considerações sobre o impacto
prejudicial das distorções da sociedade relativas
à personalidade e atitudes do homem, gostaria de
apresentar alguns valores positivos que encorajarão
nos filhos, o desenvolvimento do caráter cristão
e de valores morais sólidos.
Valores positivos impactam adequadamente a vida de nossos
filhos
- Caráter cristão e valores morais sólidos
desenvolvem-se entre modelos positivos, sempre presentes
e perceptíveis.
Uma das maiores tristezas que a família brasileira
enfrenta, a meu ver, é a ausência paterna no
lar. Ando pelas ruas dos grandes centros urbanos ou em cidades
do interior e vejo homens sentados nas mesas dos bares bebendo
ou jogando cartas. Às vezes, pergunto-me: "Onde
estão a esposa e filhos desse homem?" Por que
os homens se refugiam em bares ao invés de desfrutarem
da companhia de seus familiares, em suas casas?
Pai, você deve ser um modelo de caráter cristão
para seus filhos. Eles merecem que você seja sensível,
carinhoso e compassivo. Eles necessitam vê-lo tratando
a mãe deles de forma respeitosa e com muita ternura;
isto vai marcá-los definitivamente e interferirá
corretamente no casamento e no relacionamento deles com
suas futuras esposas.
- Caráter cristão e valores morais sólidos
são desenvolvidos em ambiente que cultiva uma intimidade
sadia.
Nossa cultura tem deturpado o verdadeiro significado e motivação
da intimidade. Costumeiramente ela é associada a
romances picantes e encontros sexuais. Isto provoca nos
filhos a idéia equivocada (que depois transforma-se
em convicção) de que a intimidade só
pode ser alcançada na relação sexual.
Uma jovem de dezenove anos de idade compartilhou comigo
que gostaria de ter um relacionamento mais próximo
com o pai, mas receava aproximar-se, pois ele, no passado,
já tinha tentado molestá-la. Pedi que me explicasse
o que queria dizer com isso. Sua resposta foi magnífica:
- Intimidade é a capacidade de ser autêntico,
transparente e não ter qualquer reserva em relação
a uma outra pessoa. Infelizmente, não posso ter esse
tipo de relacionamento com meu pai.
Pai, seu filho necessita e deseja que você seja íntimo
e autêntico com ele e também com sua esposa.
Se ele não consegue enxergar essa qualidade em você,
onde a encontrará? Infelizmente em lugar nenhum!
Seu futuro casamento antecipa compromissos misteriosos,
barreiras de comunicação, preocupação
em manter as aparências, falta de transparência
e autenticidade.
Quando estou ministrando os seminários Lar Cristão
pelo Brasil ensino a importância da intimidade conjugal:
- Intimidade emocional (capacidade de dividir com o cônjuge
os sentimentos mais profundos da alma);
- Intimidade intelectual (capacidade de dialogar sobre todo
e qualquer assunto);
- Intimidade espiritual (capacidade de conversar com Deus,
também intimamente, junto com o cônjuge);
- Intimidade física (liberdade de desnudar o corpo
diante do cônjuge);
Seu filho precisa desenvolver estas mesmas capacidades
em sua relação filial. Dê a ele o privilégio
de investigar, descobrir, conhecer e tentar entender os
mistérios de sua alma, pai, e também da dele
como filho.
- Caráter cristão e valores morais sólidos
desenvolvem-se em ambiente seguro;
- Nossos lares devem ser refúgios seguros, pois as
crianças não estão preparadas para
enfrentar grandes instabilidades emocionais. O pai que não
é visivelmente apaixonado pela mãe de seu
filho planta uma semente de insegurança no coração
dessa criança: "Será que um dia meus
pais vão se separar? Parece que eles não se
gostam!";
O pai que se ausenta de casa freqüentemente contribui
para aumentar a insegurança de seu filho. Quando
ele não está perto, a criança não
pode experimentar a provisão emocional, o ensino,
a transmissão dos valores paternos e seus conselhos.
É uma sobrecarga dura demais para uma mulher ser
mãe e pai.
Quando minhas meninas eram ainda bem pequenas eu viajava
muito. Confesso que o tempo que eu ficava fora (aproximadamente
40%, numa escala de 100%) me deixava muito apreensivo. Fiz
algumas coisas que, creio, ajudaram minhas filhas a atravessarem
sem maiores traumas esse período:
- Quando em viagem telefonava diariamente, conversando
com cada uma e com minha esposa;
- Quando estava em casa planejava atividades e passeios,
juntos e individualmente;
- Às vezes elas viajavam comigo;
- Constantemente eu reafirmava meu amor por elas;
- Caráter cristão e valores morais sólidos
desenvolvem-se onde a dignidade de cada pessoa é
priorizada;
Acredito que dignidade seja uma questão de respeito.
O pai não deve ser um ditador, um mandão,
mas um amigo sempre acessível que sabe ouvir, encorajar,
estimular e consolar. A criança só tem a ganhar
quando percebe, o mais cedo possível, que é
amada, aceita, querida incondicionalmente, seja qual for
seu desempenho. O pai deve comunicar e ensinar que ela foi
criada à imagem de Deus: "por modo assombrosamente
maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis..."
( Sl 139.13-18).
Quando os pais demonstram possuir um compromisso sólido
em relação ao enfoque sagrado da vida, o senso
de valor cresce na personalidade emocional da criança.
Ela se sente segura como pessoa, sente que tem valor e condições
de contribuir significativamente para que a vida seja melhor;
seu pai reconhece seu potencial, seus dons, talentos, capacidades
e a ajuda a canalizá-los e utilizá-los para
o seu desenvolvimento pessoal. O resultado é que,
quando adulta, ela não será uma pessoa manipuladora,
explorando os mais fracos ou prejudicando os outros para
subir na vida.
- Caráter cristão e valores morais sólidos
são encorajados num ambiente de compaixão.
O mundo é extremamente competitivo, crítico,
não economiza abusos verbais, chacotas, palavrões
e pressões e também estimula o conformismo.
É muito fácil uma criança sentir precocemente
fracasso, inferioridade, inaptidão e desenvolver
a síndrome do "patinho feio".
Se nossos lares forem um porto tranqüilo de carinho,
amor e compreensão, seremos capazes de enfrentar
e combater as pressões externas que atacam nossa
auto-estima e a de nossos filhos.
Pais, seus filhos necessitam vê-los como alguém
compassivo com outras pessoas, além de seus familiares.
Pequenas atitudes de solidariedade e educação
no shopping, no supermercado, no posto de gasolina os despertarão
para aprender como serem servos, aptos a ajudar e aliviar
a dor de outros seres humanos.
Queridos pais fiquem alertas às tendências
da mídia que procura sugestioná-lo e a seu
filho. Você é uma proteção, um
escudo contra os ataques satânicos na vida dele. Proporcionar
um ambiente de amor, aceitação e respeito
é vital para o sucesso da sua tarefa de desenvolver
um caráter cristão e valores morais sólidos
na vida de seus filhos.
JAIME KEMP é atualmente diretor da Sociedade Religiosa
Lar Cristão. Foi missionário da Sepal por
31 anos e fundador da Missão Vencedores Por Cristo.
É conferencista e autor de 33 livros. Aceita convites
para seminários e palestras.
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